Trabalho
Entregadores de app: estudo revela riscos e pressão por 'virilidade' nas ruas de SP
Pesquisa etnográfica de sociólogo da USP expõe a dura realidade dos cicloentregadores, marcada por acidentes, falta de segurança e busca por autoafirmação em meio à precarização.
Um estudo da USP revelou a rotina perigosa dos entregadores de aplicativo em São Paulo. Prazos irreais, falta de suporte e a busca por aceitação levam jovens a arriscar a vida no trânsito. A pesquisa expõe a ausência de regulamentação específica para ciclistas e a pressão por 'virilidade' como forma de sobrevivência.
Redação Sintetiza • há 35 dias • 5 min de leitura

A vida de um entregador de aplicativo, especialmente para aqueles que dependem da bicicleta, é marcada por desafios que vão além da simples entrega de um pacote. Uma pesquisa etnográfica realizada por Douglas Alexandre Santos, da USP, expõe a dura realidade enfrentada por esses trabalhadores nas ruas de São Paulo.
Durante seis meses, Santos pedalou como entregador do iFood, vivenciando na pele os riscos e a pressão do dia a dia. O estudo, premiado como melhor dissertação de 2025 do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da USP, revelou um sistema de trabalho onde a prudência é punida e a segurança é negligenciada.
Prazos irreais e a busca pela 'virilidade'
Um dos principais pontos levantados pela pesquisa é a imposição de prazos de entrega que ignoram as condições reais do trânsito. Engarrafamentos, semáforos e acidentes são desconsiderados pelo algoritmo, forçando os entregadores a cometerem infrações e a se arriscarem para cumprir as metas.
A pesquisa também revelou um componente cultural preocupante: a busca por autoafirmação e reconhecimento através da imprudência. Jovens entregadores, em sua maioria negros e moradores de periferias, veem no risco uma forma de provar sua masculinidade e ganhar status entre os colegas. Acidentes são narrados com risadas e a ousadia no trânsito é vista como uma demonstração de coragem.
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Falta de regulamentação e a 'terra de ninguém'
Enquanto a regulamentação do trabalho dos motoristas de aplicativo avança no Congresso Nacional, os cicloentregadores permanecem em uma espécie de "terra de ninguém". Não há leis específicas que garantam sua segurança e seus direitos, deixando-os à mercê das plataformas e dos perigos das ruas. Santos defende que as empresas de delivery forneçam EPIs, água e promovam campanhas de conscientização sobre segurança.
O estudo da USP lança luz sobre uma realidade complexa e urgente, que exige a atenção das autoridades, das empresas e da sociedade como um todo. É preciso garantir que o trabalho por aplicativos seja uma oportunidade de geração de renda digna e segura, e não uma sentença de risco e precarização.
Posicionamento das empresas
Procuradas, empresas como iFood e representantes do setor afirmam que não incentivam comportamentos de risco e que adotam medidas para aumentar a segurança dos entregadores. A Amobitec, que reúne diversas plataformas, alega que os prazos de entrega são definidos por algoritmos que consideram dados de tráfego e que os entregadores podem acionar canais de suporte em caso de imprevistos.
O iFood afirma que os prazos incluem uma margem adicional e que oferece treinamentos, equipamentos e seguro contra acidentes. No entanto, reconhece que o uso de múltiplos aplicativos pode aumentar a pressão por tempo e influenciar comportamentos de risco. A Keeta, outra empresa do setor, afirma que a segurança dos entregadores é prioridade e que investe em tecnologia para otimizar rotas e reduzir riscos.